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Bolo de cenoura com chocolate = Doula
February 2, 2013, 9:17 am
Filed under: Doce

Bolo de cenoura com calda de chocolate

Essa não é uma definição estilo descritivo do que é uma Doula, isso você encontrará provavelmente aqui ou aqui ou aqui. Eu só vou contar como foi que eu descobri sem ser por uma explicação clara o que é uma doula, ou melhor, o que é uma doula pra mim.

Sabe aquele dia que você tem qualquer coisa te incomodando, que você dá um jeito de sair mais cedo do trabalho, que a abertura do portão da garagem parece uma eternidade ao invés de apenas segundos, quando você tem lágrimas rasas nos olhos, mas não quer que ninguém veja? Nesse dia eu desejo apenas alguém que me entenda sem palavras, que me olhe e de fato me enxergue. Normalmente eu nem sei explicar o que está acontecendo, nem sei se quero saber, muito menos contar pra alguém o que me fez ficar daquele jeito naquela hora. Eu queria um gesto silencioso que me aconchegasse, um suporte discreto que não me deixasse encabulada do meu “estado”, que me amasse mesmo sem saber o que eu tenho.

Bom, em geral isso não acontece. Eu acredito que o ser humano normalmente fica em pânico quando vê outro que gosta assim, nesse estado, ai pergunta o que foi, mas o que aconteceu, mas o que eu posso fazer por você, quer alguma coisa? Quero, quero não ter que falar, não ter que explicar. Eu sempre fico grata por essa expressão do amor do outro comigo, por saber que isso é tudo que ele pode me oferecer, mas não é o que eu preciso.

Aí entra o bolo. Um bolo de cenoura com cobertura de chocolate lembra tardes de lanche depois da escola, lembra sábados de brincadeira com os primos ou um mimo inesperado. Então o bolo em silêncio te abraça, e a cada mordida você se sente mais tranquila. Sabe que o bolo não vai te questionar, te perguntar ou tentar te dizer nenhuma palavra de consolo. Ele simplesmente age. Com ternura ele se entrega totalmente pra você, te deixa consumí-lo para que você tenha seu equilibrio, sua energia de volta.

O que isso tudo tem a ver com uma doula, você se pergunta. Bem, pra mim doula é equivalente a um bolo desses em um dia assim.

Explico:

Estava eu em um dos encontros do Alegrias de Quintal, e a Marina mostrava pra nós alguns alongamentos, alguns exercícios e algumas posições de descanso, nesse último caso pensando no dia do parto.

Foi quando ela sentou na bola de exercícios e enquanto falava com a outra mãe foi me dando instruções de como me posicionar. Eu fui obedecendo meio desajeitada (assim?, desse jeito?, ahh entendi…) e por fim eu me vi em uma posição que imagino vista de fora pareça a mais desconfortável do mundo. Afinal, é pra uma gestante de gigantes nove meses, no dia do parto. Não era desconfortável, pelo contrário, o apoio era ótimo e parecia que precisava fazer força pra ficar daquele jeito, mas não precisa.

Apressada como sou, achei que era aquilo, que a posição era aquela e que logo ela mostraria outra. Engano meu. Foi aí que ela deu a última instrução. Apoia a cabeça em mim, ela disse ao me dar as mãos. Fim.

Fim não, começo. Eu fechei os olhos enquanto encostada no seu peito, com as costas apoiadas na bola e tendo suas mãos com as minhas e aquele amor vindo direto pra mim. Ela falava mais coisas, teoricamente comigo e com a outra grávida. Mas eu já não estava mais lá.

No momento que fechei os olhos e senti suas mãos, quando relaxei e me entreguei eu só me imaginava boiando. Boiando em um mar calmo e transparente, desses que vemos nas propagandas das ilhas paradisíacas. Sem mais ninguém, sem mais nenhum som, era eu ali sendo carregada pelo invisível (bem, na verdade pela Marina, mas a sensação era essa, do invisível). E pra mim não tem sensação melhor do que estar entregue pras águas.

Foi aí que eu descobri o que é uma doula. Ela é o bolo de cenoura que estará lá no dia do parto.

Doula pra mim é essa que sabe antes mesmo de você o que pode ser bom pro seu corpo e como relaxar sua mente. Afinal, ela está te lendo de fora. Ela te sugere coisas pra te acolher e te ajuda a chegar lá, nesse momento em que precisamos de alguém que te enxergue e que tenha a tranquilidade de não se envolver pelo seu estado momentâneo.

Eu já até imagino a coisa toda. Eu assim, com aquele incômodo e pedindo ajuda pro marido que está em pânico (afinal o filho também é dele e sou eu que vou parir, não tem situação mais sinuca de bico que essa…) e ele não me entendendo e ficando nervoso por não conseguir e eu mais ainda por me sentir desamparada. Aí eu imagino a Marina chegando e sugerindo alguma coisa e eu – rabugenta como fico nessas horas de desconforto – indo fazer meio de má vontade, dizendo que não quero, eu penso nela dizendo que é só uma tentativa, que se não funcionar pode mudar, sair, parar. E aí o milagre provavelmente acontece. Eu vou achar de tempos em tempos nas sugestões que ela fizer esse paraíso escondido. Vou encontrar o meu mar particular pra ir boiar e esquecer o que está me incomodando. Me conectar com o momento, que deverá ser perfeito. O momento prévio da chegada daquele que criei na barriga e que terei nos braços dentro em breve.

Eu estou grata por ter descoberto o papel da Doula. Por elas existirem e quererem dar tudo isso. Por ter a Marina. Estou feliz por saber que teremos (eu, o marido e o bebê) esse apoio, nesse encontro.

……………

Essa receita é da Concei, que faz bolo pra nossa família já faz bem uns vinte e cinco anos.

Como toda cozinheira que cozinha sem muita receita, ela ficou doida da vida quando eu me plantei na cozinha e quis aprender e ANOTAR a receita do bolo de cenoura que ela nos faz (ainda tem na casa do papai!).

Não sei dizer se esse bolo desenforma bem, já que ele não dura mais que algumas horas. Nós comemos sempre direto da forma, cortando cada um o seu pedaço e fazendo aquela marca no fundo da forma que depois conta a história de quantos quadrados ali já foram cortados.

A Receita é toda medida em “copo de requeijão” que tem gente que diz que é a mesma coisa que “copo americano”. Eu tenho aqui em casa um único exemplar do tal copo de requeijão para essa receita (não tenho mais nenhuma que use essa medida) só por ser parte da minha memória de infância, por ser parte da história desse bolo, na nossa casa, eu quis manter a tradição. Mas eu pesei tudo pra ajudar aqueles que não tem um desses. Afinal, “um copo não muito cheio de óleo” é uma medida um tanto particular.

Receita:

2 cenouras médias

3 ovos

2 copos de requeijão de farinha de trigo / 280g

2 colh. de sopa de  fermento em pó

2 copos de requeijão não cheios de açúcar (360g)

1 copo de queijão faltando dois dedos pra estar completo de óleo (180ml)

1 xícara de café de leite (80ml)

Preparo:

Pré-aqueça o forno a 180 graus.

No liquidificador, bata as cenouras até ficarem trituradas. Adicione os ovos e o óleo e bata até ficar homogêneo.

Em um bowl, peneire a farinha de trigo, o fermento e o açúcar.

Adicione a mistura de cenoura na farinha e mexa com uma colher de pau.

Adicione por último o leite e misture até ficar homogêneo. (A Concei diz que esse é o segredo do bolo ficar fofinho, esse é o segredo dela.)

Derrame na forma untada e leve ao forno até que um palito saia limpo (cerca de 25 minutos).

Obs: Hoje só tinha 2 ovos, então resolvi dobrar a quantidade de leite. Funcionou.

Calda:

– A tradicional calda é aquela de manteiga, açúcar e chocolate em pó (na receita da Concei as medidas são: 40g de manteiga, 2 col. de sopa de açúcar e duas col. de sopa de chocolate em pó: Colocar todos os ingredientes em uma panela e levar ao fogo baixo e mexer até derreter. Derramar sobre o bolo, com ambos ainda quentes), mas eu simplesmente não acerto essa receita…

– Por isso uso a de sempre aqui em casa: 200g de chocolate, 40g de manteiga: Derreter em banho-maria o chocolate e a manteiga. Espalhar sobre o bolo.

Dica da Concei: Sempre quebrar os ovos em uma tigela antes de adicionar na mistura, caso apareça um estragado não se perde tudo (essa também é conhecida como dica de vó…)

Dica do Lee e da Renata Ishii: Pro bolo de cenoura não ficar pesado, deve-se usar cenouras mais velhas ao invés de novas. Eles deram uma explicação mais cientifica pra dica, mas como a conversa aconteceu depois do meu horário de dormir, meu cérebro fica bem limitado. Eu não sei dizer se funciona, mas como já contei no outro post sobre bolo de cenoura, aqui em casa elas só viram bolo nesse fim de vida mesmo, então eu acabo aproveitando a dica assim sem querer.






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