PicNic… PicMe


Era Uma Casa…
November 29, 2008, 9:11 am
Filed under: Diversos, Uncategorized

Guarujá

A digestão sobre esse assunto está sendo lenta, assim como quando a mamãe comia pimentão ou quando o papai não resiste a uma Pizza Hut no jantar! Hooooras de conversa com o estômago e consciência.

Descobri que dei a primeira mordida nessa história (já tinha beliscado o tema antes, mas só agora mordi mesmo!) quando começaram a chegar os presentes de casamento.

Como se é de esperar, chegaram também os palpites do que se deve ter ou não, do que é imprescindível e o que é adquirível ao longo da vida, etc e tal.

Foi decidido por todos (esse todos são muitos mesmo!) que o fundamental é um belo conjuto de louça fina, taças de cristal, faqueiro (a briga sobre ser de prata ou inox ainda está viva!) e itens de prata (bandejas, jarra, travessas e outras coisas mais que nem imaginava existirem em prata!). Bem, foi ai que o bicho me mordeu.

Eu sempre imaginei que herdaria taças, louças e blablabla. Não sei o motivo, mas amo muito mais as coisas que carregam o “foi da minha mãe/tia/vó/tiavó/bisavó….”. Eu queria ter o nosso jogo (já que o Rick acha tudo que tem cara de vó/Bisavó e cia terrível, a não ser que tenha o mesmo gosto que ele, basicamente só o que a tia Nica gosta é que ele também gosta!).

Fiquei chocada ao reparar que nem sei quais são as taças que a mamãe ganhou quando se casou, ou como é a louça da vovó. Conheço de cor as louças da avó do Rick, as toalhas de mesa da vovó Eneide, as louças da Tia Nica, os talheres de prata roubados, a mesa de jantar oval da Dona Fanny em que eram servidos almoços semanais para toda a família (a Tia Nica tem uma mesa igual e toda quarta tem um almoço espetacular nela!).

Lena e eu vamos dividir os conjuntos de louça que a mamãe e o papai adquiriram quando moravam em Portugal, foi o acordo que fizemos com o papai. A mesa de jantar com desing Italiano foi pra Irene (ela ama a mesa e deve estar linda no novo apê!). As cadeiras com “nós”, a Lena pediu pra ela; eu pedi o terninho e assim foi a divisão de alguns itens que fizeram parte da nossa memória de infância.

Dei a segunda mordida nesse assunto há uns dez dias.

Não temos mesa de jantar. Lembrei da mesa da vó do Rick que foi vendida quando o avô faleceu. Amamos aquela mesa. Queremos aquela mesa.

Liguei ontem para o comprador dela.

A mesa de oito lugares com desing de Eero Saarinen / Charles Eames, com acabamento em Jacarandá, está na sala de jantar deste leiloeiro de arte. Ele NÃO quer nos vender de volta. Chorei.

A terceira mordida eu dei na verdade antes da segunda, mas ela demourou mais pra cair a ficha.

Tia Nica vai vender a casa do guarujá.

Falei pro Rick no carro: – Acho que vou chorar muito quando ela for vendida.

Essa questão rende toda uma nova digestão, mas como tá tudo junto, não teve jeito. Vai ter que ser simultânea a compreensão.

Ontem, enquanto olhava pela porta do Rosmarino – e aguardava a chegada de  mais clientes ou a ida de outros – começei a pensar sobre esse meu apego a uma casa de veraneio de outro alguém.

Além dos motivos óbvios, como bons momentos vividos lá (foram várias páscoas, nivers do Rick, algumas viradas de ano e janeiros de verão) reparei que o estopim para tanto amor a essa construção pouco tem a ver com suas paredes (lógico que aquela arquitetura que amamos e detalhes tão parecidos com nossos sonhos são itens importantes para esse amor!). Me sinto em casa naquela casa.

Foi aí que pensei: como é que uma pessoa consegue transformar um local estranho em lugar que se sente em casa. Não cheguei a nenhuma grande conclusão.

Observei que sentir-se em casa tem a ver com sentir-se seguro, o que é muito subjetivo (porque você se sente mais seguro girando a chave da porta duas vezes ao invés de uma? Se quiserem abrir, tanto faz, uma, duas ou dez!). Tem a ver com liberdade. Tem a ver com intimidade. Tem a ver com afinidade (com o anfitrião, a vizinhança, a mobília, os quadros, a energia, o gato, o cão…). Tem a ver com se sentir a vontade. Tem a ver com ser você mesmo, assim como se estivesse na sua casa… Se sentir em Casa.

Reparei que de forma inconsciente faço um teste pra saber o quanto em casa me sinto em cada lugar. Sempre penso na cozinha. Se entraria lá quando quisesse. Se abriria a geladeira. E o teste mor, se cozinharia lá. Estes são os degraus que separam uma casa que estou como visita e uma casa em que me sinto em casa.

E foi ai que descobri o motivo de tanto apego à casa do guarujá, da Tia Nica. Esta casa é uma das poucas onde me sinto em casa. Percebi que as poucas casas onde me sinto em casa estão sumindo.

Me sinto em casa lá, me sinto em casa na casa do papai na rua japão, na casa da Lena, na da Tia Angela, na da Tia Ana Paiva, na da Tia Wanda (essas duas últimas não são no Brasil, então é raro aproveitar isso!) a ponto de cozinhar o que eu quiser, de dormir no sofá vendo filme, de levar a Avelã comigo, etc, etc…

Me sinto a vontade em outras tantas, mas não a ponto de cozinhar…

A quarta mordida ainda está por vir.

Perder essas casas onde me sinto em casa me dá uma certa insegurança, o porquê e o que fazer em relação a isso será o próximo tema a ser digerido.

Essa música é uma das minhas favoritas de criança! A Irene que cantava pra gente quando eramos pequenas. Ela AMA a Arca de Noé e a turma do Balão Mágico!

A letra se encaixa perfeitamente em tudo que andei tagalerando. No fundo, no fundo, o que nos faz gostar de uma casa é completamente sentimental e não material.


2 Comments so far
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Má, perfeita a associação do tema com a música que a Irene cantava pra gente. Inclusive, acho que muitos não percebem que ela pode ser mais profunda do que aparenta, porque mostra que a casa não é só física e na verdade não precisa nem mesmo de paredes, a nossa “casa” pode ser a barriga de nossas mães (aliás, vc parece ter sofrido bastante com a perda desta casa quando vc nasceu, pq vc chorava bastante! hehe), pode ser um colo amigo e tudo aquilo que faz com que você se sinta em casa, ou seja, como vc mesma disse, tudo o que te faz sentir a vontade.
Eu me sinto a vontade com você, sempre, em qualquer lugar, à respeito de qualquer coisa. Você é uma das minhas casas, obrigada!
Beijinhos

Comment by Helena Costa

Marina,
você tocou em um assunto complexo para mim. Minha casa! Uma noite dessas, batendo papo com minha mãe (sua avó) na casa dela da Rua Japão ela comentava que para ela a casa dela é o Largo da Matriz e para seu avô (meu pai) era o apartamento da rua Japão. Tanto que foi ali que escolheu para passar seus últimos anos. Ali era sua segurança. Foi com esta conversa de fim de noite (a noite para sua avó acaba quando começa a novela da Globo) que eu me dei conta que nunca tive minha casa. Não importa se alugada, se cobertura duplex, se cobertura simples com vista para o Tejo, o Atlântico, Cascais e Sintra, se aconchegante, se casa casa ou casa apartamento, eu nunca tive minha casa. Recentemente estive bem perto de tê-la, muito perto mesmo, a ponto de ter um projeto de arquitetura em cinco etapas. Ir construindo minha casa aos poucos, montando as coisas do jeito que eu pudesse dizer, cheguei em casa! Mas foi só muito perto mas ainda não foi; e talvez nunca vá ser. Um dos karmas com os quais temos que conviver, simplesmente são karmas e karmas são difíceis de se bater. Gosto do astral do apartamento do Guarujá, realmente gosto, mas se amanhã tiver que vendê-lo ou dá-lo ou alugá-lo, minha vida continua igualzinha. Não gosto disto, acho muito melhor seu geito de ter as suas casas, mesmo que não sejam suas no papel, mas que sejam aquelas em que você pode abrir a geladeira e cozinhar. Com certeza você vai chorar quando for vendida a casa da tia Nica no Guarujá. Mas não se preocupe – com a crise economica vai demorar para encontrar comprador…
p.s. o comentário da Lena está lindo!

Comment by Paulo




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